A desesperança, a decepção, o desalento têm feito o dia-a-dia dos brasileiros. Embora sempre haja o novo a surpreender-nos, não é a surpresa, o novo, que nos espreita. Já vimos de tudo, e não é possível que algo ainda traga em si a marca do inusitado, do insólito, do anormal. Casos e escândalos como os do Painel do Senado, Mensalão, Mensalinho, Proer, Bingos, Paubrasil, Encol, Polonetas, Banda Podre, Propinoduto, Casos assim e assados, CPIs disto e daquilo, que levam a nada; não, talvez uma bomba, do tipo a que dizimou Nagazaki e Hiroshima, nos provoquem algumas cócegas, nos façam chorar, ou rir – quem sabe? Nesse estado de espírito – a que fomos levados, de letargia, indiferença e da perda de mensuração de valores, como moralidade, ordem, decência, respeito, patriotismo, honra, ética, há muito varridos da vida brasileira, poderemos indagar:
Até quando idosos, crianças, mulheres em trabalho de parto – privilegiados pela Constituição Federal, mas desafortunados – morrerão nas calçadas dos hospitais, depois de dias e noites de espera por um atendimento que não chegou, para depois ocuparem espaço na mídia?
Até quando ouviremos o depoimento de uma mulher, jovem, de pé e aparentando saúde, deplorando a falta de atendimento médico, para, em seguida, no mesmo bloco, ser noticiada sua morte, morte anunciada, pois ela falou da hipótese de poder não estar mais ali no dia seguinte?
Até quando, impotentes, estarrecidos, inermes, assistiremos a tragédias como a de 17 de julho, em Congonhas, quando 176 pessoas voaram para a morte e, ironicamente, encontraram-na ao final da viagem? E tudo sobrevindo ao choque de uma aeronave da GOL, em setembro de 2006, quando 154 ocupantes perderam a vida em condições até hoje não explicadas. Ironia ainda, no período dos Jogos Pan-americanos Rio 2007, em que se quebraram recordes, o acidente de São Paulo, superou números anteriores (tristes recordes), se lembrarmos o vôo 168 da Vasp, em 1982, no Ceará, que vitimou as 154 pessoas a bordo.
Até quando edifícios e pontes desabarão aos nossos olhos, avenidas se abrirão, engolindo carros, pessoas e o que quer que esteja em seus limites, ocupando por longo tempo o horário nobre da tevê, que inebria o povo, e sempre à procura dos (ir)responsáveis por toda a desgraça?
Até quando, lembrando Juca Chaves, pois foi assim com a Gameleira, a Ponte Rio-Niterói, o Elevado Paulo de Frontin e com um sem-número de obras, os desastres ocorrerão e não se encontrarão culpados, responsáveis? Razoável que essas concepções do engenho humano não estejam imunes a falhas, principalmente porque obras de homens, e a falibilidade é um atributo nosso. Um basta, porém que estamos errando demais. Certo que boeing, airbus não foram projetados para cair, existem para voar; (o Titanic, na insânia dos que o planejaram, nem Deus afundaria). Só que, após o ocorrido, alguém aparece para afirmar que tudo será apurado, todos os envolvidos serão rigorosamente culpados – a senha de que não doerá uma unha de quem quer que seja. Lamentavelmente, outra tragédia virá, para ela voltando-se toda a atenção: uma nuvem de fumaça sobre a anterior.
Até quando, descoberto novo escândalo, alguns se apressarão a opinar que dessa vez tudo será diferente, após o que se expedem e cumprem-se mandados de prisão, e, pouco a pouco, cada um é solto, para se defender em liberdade, liberdade ad aeternum?
Até quando parlamentares que fugiram ao dever de representantes do povo, e disso só tiram proveito, irão se valer da renúncia, após frustradas tentativas de se manterem no cargo, para retornarem a uma cadeira nas eleições seguintes, aceito pacificamente o argumento de que eleitor não tem memória?
Até quando os rombos (ou os roubos), de que se tem notícia, do dinheiro público não são investigados à exaustão, de forma ao ressarcimento integral e à punição de seus autores?
Até quando conviveremos com uma população carcerária de 350.000 presos, informando as pesquisas que mais da metade deles tem menos de 30 anos; 95% são pobres, 95%, do sexo masculino e dois terços não completaram o primeiro grau, havendo 12% de analfabetos? Contingente formado basicamente por jovens, pobres, homens com baixo nível de escolaridade. Desse total, 17,4% são crianças e adolescentes com menos de 18 anos internados em estabelecimentos de correção ou cumprindo medidas em regime de liberdade assistida.
Até quando viveremos do sonho da Lei de Execuções Penais, de 1984, prevendo em seu art. 88 que: "O condenado será alojado em cela individual que conterá dormitório, aparelho sanitário e lavatório", quando vemos, ostensivamente mostrado pelos jornais e tevês, verdadeiros currais humanos? Sobraram idealismo, bons propósitos, faltaram ações concretas para implementação do que se pretendia.
Até quando assistiremos à impunidade – manto dos grandes criminosos! – quando, sim, Maria Aparecida de Matos, 24 anos, foi presa em São Paulo durante 11 meses, por tentativa, repito: tentativa de furto de um xampu e de um condicionador, no valor de R$ 24,00? Agredida por outras detentas, perdeu a visão do olho direito. E ficaria presa por mais um ano se a Advogada Sônia Regina Arrojo e Drigo não acorresse em sua defesa. E os casos de dois jovens, preso um deles por dois anos pelo furto de um boné, de R$ 10,00; o outro cumpriu oito meses de pena pelo furto de uma fita de videogame, que custava R$ 25,00. Um detalhe: todos são pobres.
Até quando concluirá o povo brasileiro que não nos faltam leis – temo-las de sobra – sim, falta-lhes o cumprimento?
Até quando, tristemente, vingará como verdade inconteste, a afirmação de Rui, de que de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto?
Até quando, enfim, nossos governantes, os que têm o encargo de dirigir a Nação Brasileira, continuarão a nos tratar a todos apenas como massa, e a coisa pública como coisa de ninguém – ou deles? Neste país, falta mesmo é ação, que retórica temos demais.